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Domingo, 30 de Agosto 2026
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Democracia, disciplina e a fabricação do consenso.

Foucault, Habermas, Adorno e Chantal Mouffe diante da crise da esfera pública

Democracia, disciplina e a fabricação do consenso.
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Há uma pergunta que atravessa, de maneiras diferentes, as obras de Michel Foucault, Jürgen Habermas, Theodor W. Adorno e Chantal Mouffe: como uma sociedade produz sujeitos capazes de reconhecer determinada ordem social como legítima?

A pergunta parece simples, mas conduz a um dos problemas fundamentais da modernidade: o poder não se sustenta apenas pela força. Ele precisa produzir comportamentos, discursos, desejos, consensos e formas de percepção da realidade.

É nesse ponto que Vigiar e Punir, de Michel Foucault, Mudança Estrutural da Esfera Pública, de Jürgen Habermas, os escritos críticos de Theodor Adorno e O Paradoxo Democrático, de Chantal Mouffe, podem ser colocados em diálogo. Embora partam de tradições teóricas diferentes, os quatro autores permitem observar uma mesma transformação histórica por ângulos distintos: a passagem de uma sociedade organizada pela autoridade explícita para uma sociedade na qual o poder se torna cada vez mais difuso, racionalizado, internalizado e, muitas vezes, apresentado como liberdade.

1. Foucault: quando o poder deixa de precisar ser visto

Em Vigiar e Punir, Foucault desloca a compreensão tradicional do poder.

O poder moderno não precisa estar permanentemente diante do indivíduo. Ele pode funcionar justamente quando sua presença não é percebida.

A arquitetura do panóptico, inspirada no projeto de Jeremy Bentham, representa essa transformação. O indivíduo pode ser observado a qualquer momento, mas não sabe exatamente quando está sendo observado. Por isso, começa a comportar-se como se estivesse sempre sob observação.

O mecanismo é extraordinariamente eficiente: o olhar externo transforma-se em vigilância interna.

A sociedade disciplinar produz corpos úteis, previsíveis e treinados. Escola, quartel, fábrica, hospital, prisão e outras instituições passam a organizar o tempo, o espaço e os comportamentos.

Mas há algo ainda mais profundo nessa análise.

O poder não apenas reprime.

Ele produz.

Produz classificações, normalidades, desvios, identidades, saberes e formas de subjetividade.

A pergunta deixa então de ser apenas "quem manda?" e passa a ser:

quem define o que é normal?

Essa pergunta será fundamental quando entrarmos no território da comunicação, da cultura e da democracia.

2. Adorno: quando a dominação entra pela cultura

Se Foucault permite observar o poder através da disciplina, Adorno ajuda a compreender outra dimensão da dominação: aquela que atravessa a própria experiência cultural.

Na crítica da indústria cultural desenvolvida por Adorno e Horkheimer, a cultura deixa de ser compreendida apenas como espaço de expressão humana e passa a ser analisada também como mercadoria submetida à lógica da produção e do consumo.

O problema não está simplesmente em existirem produtos culturais produzidos em massa.

O problema está na transformação da própria experiência humana em algo administrável.

A indústria cultural oferece entretenimento, mas também oferece categorias para interpretar o mundo. Ela organiza expectativas, gostos, comportamentos e desejos.

O indivíduo acredita estar escolhendo, mas frequentemente escolhe dentro de um universo previamente organizado de possibilidades.

É aqui que Adorno encontra Foucault de maneira surpreendente.

O indivíduo disciplinado não precisa necessariamente receber uma ordem.

Ele pode desejar aquilo que a estrutura social já preparou para que ele deseje.

A dominação torna-se mais sofisticada quando deixa de aparecer como dominação.

O poder não precisa dizer:

«"Você deve pensar assim."»

Pode simplesmente construir um ambiente no qual determinadas formas de pensar parecem naturais, óbvias ou inevitáveis.

A crítica de Adorno, portanto, não se limita à televisão, ao cinema ou à música. Ela aponta para uma questão maior: a possibilidade de uma sociedade produzir indivíduos que reproduzam espontaneamente a racionalidade dominante.

3. Habermas e a promessa da esfera pública

É nesse cenário que Habermas introduz uma questão decisiva.

Em Mudança Estrutural da Esfera Pública, ele investiga historicamente a formação de um espaço intermediário entre Estado e sociedade: a esfera pública.

Cafés, jornais, associações, salões, espaços de discussão e circulação de ideias constituíram, em determinado momento histórico, condições para que indivíduos privados se reunissem para discutir assuntos de interesse coletivo.

A promessa era extraordinária.

A política poderia deixar de depender exclusivamente da autoridade e passar a depender também da argumentação pública.

O cidadão poderia participar da construção da legitimidade política por meio do debate.

Mas Habermas também identifica a transformação dessa esfera.

Com o desenvolvimento do capitalismo, da comunicação de massa e da publicidade, a esfera pública passa progressivamente a ser atravessada por interesses econômicos e políticos.

O espaço destinado à formação da opinião pública pode transformar-se em espaço de fabricação da opinião.

E aqui encontramos novamente Adorno.

Se a indústria cultural transforma a cultura em mercadoria, a transformação da esfera pública pode transformar também a opinião em mercadoria.

A publicidade deixa de vender apenas produtos.

Ela passa a vender estilos de vida.

A comunicação política deixa de apresentar apenas argumentos.

Ela passa a vender imagens.

O candidato transforma-se em marca.

A ideia transforma-se em slogan.

A discussão transforma-se em espetáculo.

E o cidadão corre o risco de transformar-se em consumidor político.

4. Do cidadão ao espectador

A aproximação entre os quatro autores permite perceber uma mudança particularmente importante.

A democracia moderna pressupõe cidadãos.

Mas o capitalismo tardio desenvolveu sistemas de comunicação capazes de produzir espectadores.

Essa diferença é fundamental.

O cidadão participa da construção do espaço público.

O espectador consome aquilo que aparece no espaço público.

O cidadão argumenta.

O espectador reage.

O cidadão organiza-se.

O espectador compartilha.

O cidadão constrói instituições.

O espectador pode transformar indignação em engajamento momentâneo e, em seguida, retornar ao consumo cotidiano.

Não significa que a sociedade contemporânea tenha eliminado a capacidade crítica.

Significa que essa capacidade disputa espaço com mecanismos extraordinariamente poderosos de distração, fragmentação e administração da atenção.

Nesse sentido, Foucault, Adorno e Habermas parecem apontar para uma mesma transformação por caminhos diferentes:

o poder moderno tornou-se menos dependente da imposição direta e mais dependente da organização do ambiente no qual os indivíduos pensam, desejam, comunicam-se e escolhem.

5. Mouffe: o problema do consenso

É nesse ponto que Chantal Mouffe introduz uma correção fundamental.

A democracia não pode ser confundida com a eliminação do conflito.

Em O Paradoxo Democrático, Mouffe critica a ideia de que uma democracia plenamente racional deveria caminhar para um consenso definitivo.

Para ela, o conflito é constitutivo da política.

Não existe sociedade completamente reconciliada consigo mesma.

Existem interesses diferentes, valores diferentes, projetos diferentes de sociedade e diferentes concepções sobre justiça.

A democracia não elimina essas diferenças.

Ela precisa criar condições para que elas possam ser disputadas politicamente.

Essa perspectiva é particularmente importante diante de Foucault e Adorno.

Se Foucault nos mostra como as estruturas de poder produzem normalidades, e Adorno mostra como a cultura pode produzir conformismo, Mouffe nos lembra que a política continua sendo o lugar da disputa pela definição do mundo comum.

A questão, portanto, não é construir uma sociedade sem conflito.

É impedir que o conflito seja transformado em guerra entre inimigos absolutos.

Mouffe propõe pensar a democracia como um espaço no qual adversários podem disputar o poder sem precisar destruir a legitimidade política uns dos outros.

O adversário deve poder existir.

6. O paradoxo contemporâneo

Aqui surge um paradoxo inquietante.

A democracia precisa de conflito para permanecer viva.

Mas a indústria cultural pode transformar o conflito em espetáculo.

As redes de comunicação podem transformar adversários em inimigos.

A esfera pública pode ser transformada em mercado de atenção.

A vigilância pode tornar-se cotidiana.

A opinião pode ser administrada por algoritmos.

E, simultaneamente, o indivíduo pode acreditar que está exercendo sua liberdade justamente porque escolhe entre diferentes opções previamente disponibilizadas.

Temos então uma situação curiosa:

nunca tivemos tantas possibilidades de expressão e talvez nunca tenha sido tão necessário perguntar quem organiza as condições dessa expressão.

Podemos falar.

Mas quem será ouvido?

Podemos escolher.

Mas entre quais alternativas?

Podemos discordar.

Mas nossa discordância produz reflexão ou apenas alimenta o espetáculo?

Podemos participar.

Mas nossa participação modifica alguma coisa ou apenas produz dados sobre nosso comportamento?

Essas perguntas aproximam radicalmente os quatro autores.

7. A democracia administrada

Talvez uma das maiores ameaças contemporâneas à democracia não seja simplesmente a censura.

É a administração da liberdade.

Uma sociedade pode permitir que as pessoas falem incessantemente e, ainda assim, produzir pouco espaço para a escuta.

Pode oferecer milhões de informações e produzir pouca compreensão.

Pode multiplicar opiniões e reduzir o pensamento.

Pode permitir que todos tenham voz e, simultaneamente, transformar todas as vozes em ruído.

Nesse sentido, a liberdade pode ser administrada por excesso, e não apenas por restrição.

É aqui que a crítica de Adorno torna-se novamente atual.

Uma sociedade não precisa proibir o pensamento crítico se conseguir ocupar completamente o espaço disponível para pensar.

Foucault acrescentaria que não precisamos de um centro absoluto de poder para produzir sujeitos disciplinados.

Habermas perguntaria pelas condições efetivas da comunicação pública.

Mouffe lembraria que, apesar de tudo isso, a democracia permanece uma arena de disputa e não pode ser reduzida à administração tecnocrática do consenso.

8. O conflito contra a anestesia

Talvez a tarefa política contemporânea seja menos produzir consenso e mais preservar a capacidade de discordar conscientemente.

Não qualquer discordância.

A indústria cultural pode transformar a indignação em mercadoria.

As redes podem transformar a polarização em entretenimento.

O conflito pode ser cuidadosamente alimentado porque gera atenção.

Por isso, o conflito democrático defendido por Mouffe não é equivalente à guerra permanente de todos contra todos.

É uma disputa na qual ainda existe um mundo comum.

Essa distinção é fundamental.

A democracia precisa de antagonismo suficiente para impedir a cristalização do poder, mas precisa também de instituições capazes de impedir que o antagonismo destrua a própria possibilidade de convivência.

Entre Foucault, Adorno, Habermas e Mouffe aparece, então, uma tarefa política profundamente contemporânea:

recuperar o espaço público como espaço de pensamento, conflito e construção coletiva, antes que ele seja completamente convertido em espaço de consumo, vigilância e espetáculo.

9. E talvez a questão seja o olhar

Há uma palavra que atravessa silenciosamente essa discussão: olhar.

Foucault nos apresenta o olhar disciplinar.

Adorno nos mostra o olhar produzido pela indústria cultural.

Habermas pergunta pelas condições sociais nas quais os indivíduos podem olhar uns para os outros como participantes de uma discussão pública.

Mouffe nos lembra que, numa democracia, precisamos continuar olhando para o outro não necessariamente como alguém que pensa como nós, mas como alguém que tem o direito de disputar conosco o significado do mundo.

Talvez a crise contemporânea não seja simplesmente uma crise de informação.

Seja uma crise da capacidade de olhar.

Olhar sem consumir imediatamente.

Olhar sem transformar o outro em inimigo.

Olhar sem aceitar como natural aquilo que foi historicamente produzido.

Olhar para as estruturas que organizam nossas escolhas.

Olhar para aquilo que nossa própria consciência aprendeu a considerar normal.

E, sobretudo, olhar para a democracia não como uma máquina destinada a produzir unanimidade, mas como uma construção frágil na qual diferentes sujeitos precisam continuar disputando o direito de definir o futuro.

A sociedade disciplinar ensinou o indivíduo a vigiar a si mesmo.

A indústria cultural ensinou-o a consumir suas próprias representações.

A transformação da esfera pública ensinou-o a confundir opinião com mercadoria.

A democracia contemporânea corre agora o risco de ensiná-lo a confundir conflito com destruição.

Talvez a resistência comece quando conseguimos interromper esse automatismo.

Quando deixamos de apenas reagir e voltamos a pensar.

Quando deixamos de apenas consumir opiniões e voltamos a construir argumentos.

Quando deixamos de procurar um mundo sem conflito e começamos a construir instituições capazes de conviver com ele.

Porque uma democracia verdadeiramente viva não é aquela em que todos pensam da mesma maneira.

É aquela em que ninguém consegue ocupar sozinho o direito de dizer o que todos devem pensar.

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Alessandro Capoia
Psicólogo, estudioso da mente humana e da cultura, ensaísta e pesquisador das relações entre subjetividade, sociedade, filosofia e política.

Alessandro  Capoia

Publicado por:

Alessandro Capoia

Com 20 anos de bagagem na área clínica e social, Alessandro Capoia é formado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e pós-graduado em Psicologia Social e Saúde Mental. No consultório, ajuda adultos, casais e famílias a quebrarem ciclos...

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